Os desafios de um Psicoterapeuta

Por Tatiele de Castro em 16 de maio de 2018

 

Desde a graduação vivemos muitos desafios: o primeiro estágio, as primeiras vivências profissionais, o “colocar a mão na massa”; os desafios diários que vão germinar o nosso crescimento e junto dele a certeza sobre a escolha profissional. Uma certeza tão gratificante que, ao desenvolver em nós o desejo de olhar e cuidar do outro, faz com que, às vezes, nos esqueçamos de cuidar e olhar para nós mesmos. Ao optar por cuidar dos outros, criamos como que cascas, que nos fortalecem e endurecem para poder suportar a dor do outro.
Contudo, aparecem casos que nos fazem sentir e lembrar quem somos e de onde viemos. E não seria diferente comigo.

Gostaria aqui de compartilhar minha emoção em atender uma adolescente que chamarei de Anna*. Uma adolescente de 17 anos, moradora de um abrigo da capital gaúcha. Chegou encaminhada para atendimento psicológico por conta das crises de ansiedade. Uma menina fisicamente forte, mas de um olhar tão triste, que foi me contagiando assim que começamos a conversar. Pensei: “não deveria ser o contrário?”; “não deveria eu passar esperança para ela”? E com estes questionamentos fiquei por dias, trabalhando em mim a falta de respostas, as quais, enfim, nunca teremos todas.

Mas Anna me colocou a prova. O fato é este. Sua história difícil, de menina abandonada, privada de afeto, família, e já mãe de uma criança de dois anos. Anna ainda ansiava por ser filha, tinha tantos buracos afetivos que não encontrava forças para o papel de mãe. Em seu discurso pontuava o desejo de voltar a viver com a mãe, prometendo a si que as coisas seriam então diferentes, projetando uma mãe a lhe esperar. A realidade me aparece em toda a sua dureza, crueza. A impotência toma conta de mim. Gostaria de dizer-lhe que tudo ficaria bem, que sua mãe lhe esperava, de braços abertos para ela e a neta. Mas, a realidade dizia que, nos três anos em que estivera no abrigo, sua mãe não lhe visitou, nem sequer ligou.
Anna, quantas por aí? Quantos desafios esta menina mulher ainda tem para passar? O quanto tenho a aprender?

A experiência muitas vezes vem de situações difíceis, mas assim como o conhecimento, tem que nos acompanhar. A esperança compõe nossa prática e é ingrediente fundamental para ajudar quem nos procura. Os desafios acontecem a cada dia, a cada hora, a cada minuto, a todo instante.
Trabalhar com saúde mental requer muito cuidado, principalmente porque lidamos com diversas fragilidades, que perpassa várias áreas da vida humana, e isso inclui a nossa própria.

* As informações contidas nesta publicação não substituem a avaliação de um profissional da área da saúde mental.


Sobre a autora:
Tatiele é Psicóloga e Terapeuta do Esquema.

 

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