Que país é este?

Por Andrea Rapoport em 17 de abril de 2018

 

O assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes no Rio de Janeiro mobilizou não apenas a opinião pública do ponto de vista político e humanitário, mas teve um alcance muito maior, talvez não explicitado ou tornado-se consciente ainda. Na verdade, a crescente violência, a crise ética e econômica, a falta de equidade no tratamento das pessoas nas diferentes instâncias da sociedade reflete-se no sentimento de desesperança, de vulnerabilidade, de revolta e de medo, fato que inclusive venho percebendo em pacientes no consultório. E não é somente diante do assassinato da Marielle e do Anderson, com motivação política, mas das centenas de assassinatos que ocorrem todos os dias.

Se alguns dos transtornos de ansiedade, grande parte das vezes, revelavam uma distorção da realidade, atenção seletiva a fatos isolados e a uma antecipação negativa dos fatos, o que podemos dizer hoje? Diante da realidade que vivemos, certo estado de alerta é fator de proteção, assim como a mudança de alguns hábitos que anteriormente não nos colocavam numa situação de vulnerabilidade. O que devemos dizer para os nossos pacientes? Hoje temos dados inegáveis desta realidade e o que nos resta é trabalhar estratégias de enfrentamento adaptativas que os levem a, por um lado, se protegerem e, por outro, a seguirem suas rotinas e buscarem qualidade de vida. O importante é que, com os cuidados adequados ao contexto que se apresenta, que a pessoa não comece a ter comportamentos evitativos e de isolamento, pois isso vai reforçar a manutenção da ansiedade e trazer outras consequências para as suas vidas.

A violência urbana pode ser um gatilho para pessoas com predisposição aos transtornos de ansiedade, depressão e stress ou agravar casos em que a doença já está presente. Além disso, mesmo quando não desenvolvem algum transtorno psicológico, muitas pessoas tornam-se sobressaltadas e hipervigilantes. Hoje as notícias não são divulgadas somente na TV, rádio ou mídia escrita. O principal meio de propagação de casos de violência tem sido as redes sociais e, quando um fato é relatado, sempre vai ter alguém que já viveu ou tem familiar ou um conhecido que passou por tal situação.

Além disso, as crianças hoje são criadas, desde pequenas, com a ideia de que vivemos num mundo perigoso, pois existem assaltos, assassinatos, pedofilia, briga entre gangues de traficantes em qualquer bairro ou horário. Imagine-se, então, como serão daqui alguns anos as crianças que cresceram num mundo assim. Muito provavelmente teremos um número significativo de transtornos de ansiedade e aumento do nível de stress, maior distanciamento entre as pessoas, talvez hábitos de rua menos frequentes, etc.

Compartilhe!Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on LinkedInEmail this to someone