Da sutileza de um fazer

Por Márcia Werner em 17 de janeiro de 2018

 

A terapia é um dos poucos espaços onde podemos estar “a sós”. É eu e eu! Eu a dialogar com meus medos, meus problemas, ou meus desafios. Tem mais alguém ali? Sim, um alguém especial. Um alguém que tenha capacidade empática de perceber que têm determinados assuntos que eu ainda não estou pronto para falar. Um alguém que me ajuda a traçar um plano terapêutico, mas que sabe que em alguns momentos eu vou precisar de uma pausa no processo para simplesmente chorar, pois tem outras coisas mais com as quais eu não estou conseguindo lidar.

Cada paciente é um mundo descortinado a nós, psicólogos clínicos! Se entregar para um estranho não é fácil, portanto, fazer terapia é um super desafio! É para corajosos. Acompanhar o processo terapêutico também é um super e apaixonante desafio! Não julgar; tarefa nada fácil, mas imprescindível neste ofício. Ver marcas dolorosas irem pouco a pouco se transformando é simplesmente incrível! Como no Documentário “Canto de Cicatriz”, é “praticar o verbo dolorir, colorir a dor”!

Na terapia, alguns descobrem que se deixaram para trás, outros percebem que correram rápido demais. E tudo isso acontece “só conversando”. Na TCC, Terapia Cognitivo-Comportamental, com a qual eu trabalho utilizo algumas técnicas, registros, exercícios, etc. Porém, a maior parte do processo acontece “só conversando” como já questionaram. Entretanto, não é uma conversa de comadre. Não é um conselho de Padre. Tampouco uma conversa de bar. Sem desmerecer nenhuma dessas conversas tão importantes quanto a conversa travada no consultório. A Conversa com “C” maiúsculo ocorre em um contexto muito delicado, pois o paciente se entrega, se mostra frágil, triste, ansioso ou aterrorizado.

E aceita o convite para viajar com o psicólogo. E a viagem é a bordo de quê? Não, não é de trem bala. Nem de avião a jato. Às vezes é de carruagem. Outras vezes vamos de helicóptero para avistar de cima. Por vezes precisamos de um submarino para tocar as profundezas. Quem define a velocidade não é o motorista, este precisa sentir quando é hora de acelerar, ou quando é hora de pisar no freio, ou até mesmo parar. Paremos por aqui, pois hoje …

O psicólogo leva junto na viagem sua bagagem de teorias e técnicas para usar. Fazer isso não é mole não! Se faz necessária muita empatia, sutileza, leveza, porque é fundamental respeitar o tempo do paciente. Precisa ter capacidade técnica que não é adquirida de hoje para amanhã, é construída mediante muito esforço, pesquisa e estudo. Este ofício exige grande responsabilidade para gerar e demonstrar confiança. Nesta viagem ambos avistarão paisagens áridas e inóspitas, mas também irão vislumbrar lindos campos, frondosas árvores e jardins floridos. Na viagem às vezes precisamos corrigir rotas. E, ao final dela, o paciente segue às vezes sem olhar para trás, pois agora não precisa mais do seu par. Leva o que aprendeu e se torna seu próprio terapeuta! Oi, muito prazer! Este é o meu fazer! O fazer da sutileza!

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