Arquivo de julho de 2015

Quão realista é a psicologia em “Divertida Mente”? (Contém Spoilers)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

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Por Carolina Halperin, Psicóloga na Wainer Psicologia Cognitiva
Diante das várias teorias que podem ser encontradas por trás da animação Divertida Mente, um aspecto salta aos olhos dos psicólogos: a mensagem sobre a importância da congruência emocional para a saúde mental.
A cultura ocidental valoriza certos traços de personalidade e comportamentos vistos como essenciais, tais como extroversão, assertividade, eficiência e otimismo; enquanto isso, a introversão e sensibilidade são muitas vezes vistas com maus olhos. Como resultado, expressões de felicidade e otimismo são extremamente valorizadas, ao passo que expressões de tristeza e descontentamento são vistas como um problema: gera desconforto se sentir triste e/ou ver as pessoas ao nosso redor tristes.
Entretanto, nem sempre a emoção adequada às situações da vida é a alegria. Perdas, traumas, mudanças e frustrações levam as pessoas a se sentir tristes. No filme, Riley se sentia animada e assustada ao iniciar na nova escola, ao mesmo tempo em que também sofria pela vida que deixara para trás.
Se Riley se sentisse triste pelas perdas e mudanças que estava vivendo, teria passado pela experiência sem maiores consequências. O problema – delicadamente ilustrado pelo filme – foi a decisão de Alegria de que Riley deveria continuar sendo a garota corajosa e feliz que acreditava que seus pais gostariam que ela fosse. A Tristeza precisava ser isolada de sua vida, ou estragaria tudo.
Não se permitir sentir o que é normal sentir em uma situação causa problemas para todos, e não só para Riley. Ao tentar sentir algo diferente do que realmente sentimos, ou ser algo que não somos, criamos uma incongruência entre o mundo interno e o externo. No filme, a Tristeza não aceitava simplesmente ficar no círculo desenhado pela Alegria: a Tristeza sabia que era absolutamente vital para a saúde mental de Riley a longo prazo.
Alegria e os outros não entenderam isso até o final do filme, quando Alegria finalmente percebeu que Riley necessitava da Tristeza para ser congruente: sentir seus sentimentos de verdade ao invés de fingir que estava tudo bem. Ao testemunhar o poder da Tristeza de transformar a dor de BingBong (apenas sentando ao seu lado e deixando-o falar e chorar) Alegria percebeu que a Tristeza é terapêutica por simplesmente permiti-lo ser como queria ser naquele momento, o que fez com que ele logo se sentisse melhor.
A partir desde momento, Alegria passa a insistir para que Tristeza assuma o controle da situação, o que leva Riley a finalmente ter um momento de choro e desabafo com seus pais. Momento este que repara a relação da família, que finalmente pôde mover em frente em sua nova vida.
Outro ponto que merece destaque é o fato de Riley tornar-se deprimida ao longo do filme. Ela pára de interagir com amigos, deixa de lado seus valores e crenças (Ilhas da Personalidade), perde a habilidade de rir e o interesse em seus hobbies. Isto não aconteceu porque ela não estava feliz, mas sim porque ela não se permitia ficar triste quando esta era a emoção congruente com seu momento de vida. Ela não necessitava de medicamentos anti-depressivos, tampouco necessitava ser feliz novamente. Ele necessitava autorizar-se a ficar triste, o que então a permitiria sentir todas as outras emoções.
Em terapia, talvez isso não aconteça tão rápido quanto num filme de Hollywood. O fato é que, ao aceitarmos todas as emoções como parte fundamental da vida, nos possibilitamos viver todas as experiências integralmente; o que leva ao crescimento interpessoal e ao amadurecimento.
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