Arquivo de fevereiro de 2015

O que acontece, afinal? Sobre Cinquenta Tons de Cinza…

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Por Lissia Ana Basso, Psicóloga da Wainer Psicologia Cognitiva.

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Há menos de 15 dias o filme “Cinquenta Tons de Cinza”, dirigido pela britânica Sam Taylor Johnson e baseado no primeiro livro da trilogia escrita por Erika Leonard James foi lançado, e já atingiu cerca de 3 milhões de espectadores no Brasil. Mas que história é essa que atingiu milhões de pessoas?

Christian Grey, bilionário, sedutor, dominador. Adepto às práticas sadomasoquistas, utiliza de bondages para satisfazer seus prazeres sexuais. Anastasia Steele, 21 anos, nunca teve namorado e ainda virgem, é estudante de literatura e trabalha em uma loja de materiais de construção. A jovem Anastasia faz uma entrevista com Christian Grey substituindo a amiga estudante de jornalismo que está doente. Os dois sentem uma irresistível atração e a trama se inicia com Christian tentando se aproximar e conhecer melhor a protagonista.

As opiniões divergem e tendem a posicionamentos extremos, mas afinal, não podemos ir além e identificar diversas escalas de cinza entre o preto e o branco?

Alguns consideram a história machista, que estimula a violência e o abuso contra as mulheres. Argumentam que o filme poderia estimular as adolescentes a buscar por relacionamento submisso, sexo doloroso e humilhante, que o filme ensina que se a mulher for obediente e amorosa, serão capazes de corrigir um homem violento e controlador. Por outro lado, outros defendem que se trata de uma relação consensual entre sadomasoquistas, que Anastasia também assume momentos de controle e tem poder de decisão. Tanto nos livros quanto no filme, Grey fala sobre suas preferências quanto ao sexo, explica como gostaria que o relacionamento funcionasse e não faz nada sem o consentimento de Anastasia. Ele propõe, ela o questiona, faz contrapontos e, por fim, aceita fazer parte deste novo mundo. Sente prazer no relacionamento afetivo e sexual.

Mas então, qual é o problema nisso?
Depende! Depende de como a história está sendo contada e compreendida. Se compreendermos que Anastasia foi apresentada ao universo sadomasoquista, gostou da experiência e está satisfeita, pode ser que esteja tudo certo. Agora, se entendermos que Anastasia está sendo abusada, manipulada, manifestando sofrimento, dor e tristeza, correndo o risco de desenvolver sintomas psicopatológicos, não está tudo tão certo assim.

Pois bem, em meio a tantas críticas, é válido considerarmos alguns pontos.
Sabemos que muitas cenas precisam ser escolhidas e a princípio, escolhem-se aquelas que mais caracterizam o filme. Então, apesar de algumas pessoas acharem chocantes determinadas cenas, e, de repente nunca terem assistido alguma cena de sexo mais incomum ou agressiva – como no caso dos longas Nove Semanas e Meia de Amor, o Último Tango em Paris, A Secretária, Ninfomaníaca, Azul é a Cor Mais Quente – ou terem experienciado algum tipo de fantasia, muitas pessoas afirmam que a leitura do livro auxiliou no estímulo, na imaginação e no desejo sexual. Puderam ver a relação sexual com menos pudor, não se sentindo “estranhas”, “feias” ou “sujas” por gostarem de sexo. Além disto, como nos assistem filmes de guerra, terror e ficção científica, as pessoas rapidamente conseguem identificar filmes e livros enquanto uma história de ficção e fantasia criada para o entretenimento. Isto quer dizer que estas obras por si só não tem o poder de influenciar o ser humano que já não esteja com problemas inerentes a sua vida pessoal e que possam coincidentemente convergir com as questões abordadas no filme.

A narrativa do filme mostra, ainda que sucintamente que a história de Christian e o jeito dominador e controlador são consequências de suas experiências de vida com histórico de abuso sistemático durante a infância. Vejam bem, explica, mas não justifica. Sua mãe era alcoolista, fumava crack, era prostituta, seu padrasto queimava os tocos de cigarro em seu peito. Foi adotado por uma família rica aos quatro anos de idade e a amiga de sua mãe, o abusava sexualmente na adolescência, quem lhe ensinou a se submisso. Este foi o tipo de experiências que ele teve enquanto pequeno. É assim que ele sabe se comportar, é assim que ele conseguiu sfobreviver aos sentimentos provocados por todas situações estressantes, abusivas e ameaçadoras que ele vivenciou.

Vamos considerar também, que a história de Grey é verdadeira e não uma fantasia. Então se ele encontrar uma mulher obediente, amorosa, atender seus pedidos, poderá se tornar menos violento e agressivo?
Não. Ele só irá manter o seu padrão de funcionamento. Mas mesmo se a mulher trata bem, ama, faz o que ele quer? Exatamente por isso. Como assim?
Basearei na Terapia do Esquema, desenvolvida por Jeffrey Young em 1990, para explicar. Young, Klosko e Weischaar (2008) salientam que é a partir de nossas experiências com o ambiente nos primeiros anos de vida, de nossas necessidades emocionais não atendidas e do deficitário cuidado parental é que os Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs) são formados. Esses esquemas são representações mentais internalizadas que influenciam diretamente na interpretação dos eventos e são distorcidas em nível significativo. Utilizam-se de estilos de enfrentamento de evitação, resignação ou hipercompensação para manter o esquema e confirmá-lo, tornando-o mais rígido e perpetuando-o.

Voltamos para a história do Christian. Ele foi abusado quando criança, quando adulto, inverteram-se os papéis. Tenta ser o mais diferente possível do que foi quando criança, age como se o oposto do esquema fosse verdadeiro. Ele assume o papel de abusador, caracterizando uma hipercompensação esquemática. Cada vez que esse comportamento se repetir, irá fortalecer e tornar ainda mais rígido. Então, ‘Anastasias’ submissas iriam contribuir para manter o funcionamento violento e agressivo. A submissão não romperia com um padrão esquemático disfuncional.

O que romperia com o possível esquema de abuso de Christian, seria a compreensão emocional e não apenas racional, sobre o que aconteceu quando criança; suprir necessidades que não foram atendidas, buscar formas mais adaptativas de satisfação que não seja por meio da agressão e violência. Permitir ser merecedor de cuidado e afeto. Lembrando que estamos falando de esquemas disfuncionais, os quais, geram sofrimento intenso e prejuízo significativo. Aqui, foi mencionado um esquema, dentre tantos existentes, para ilustrar uma das formas de como a psicoterapia cognitiva baseada em esquemas, pode contribuir na busca de padrões mais saudáveis e menos destrutivos.

Referência utilizada

Young, J., Klosko, J., & Weishaar, M. (2008) Terapia do esquema. Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed.

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