Arquivo de junho de 2014

Os esquemas na estruturação do vínculo conjugal

segunda-feira, 16 de junho de 2014

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casalfeliz

 

RESUMO

Os desajustes conjugais configuram-se como fortes fatores de estresse individual, evidenciando a relevância de mais estudos na área da terapia de casais como campo de aplicação das terapias cognitivo-comportamentais. Seguindo esta linha de pensamento, este artigo propõe-se a oferecer uma contribuição para o entendimento da conjugalidade, abordando a relação amorosa sob a perspectiva da Teoria dos Esquemas de Young, e focando o papel dos esquemas precoces tanto na escolha do parceiro quanto na construção do vinculo amoroso. A classificação dos esquemas em seus respectivos domínios sugerida por Young é transposta para o campo conjugal e ilustrada através de exemplos de respostas mal adaptativas no relacionamento, possibilitando a visão de como estruturas formadas na infância são acionadas e regem o modo como as pessoas pensam, sentem e comportam-se em seus relacionamentos atuais. O estudo possibilitou-nos chegar a um modelo de entendimento dos desajustes conjugais, com base na abordagem dos esquemas mentais, e concluir que os esquemas de cada parceiro se entrelaçam, formando o que chamamos de “conjunção de esquemas precoces”. Assim, o foco do trabalho terapêutico recai na reestruturação dos esquemas mentais mal adaptativos geradores de interações perturbadas na vida do casal.

 

ARTIGO

A queixa conjugal está presente não só nas terapias de casal, como também faz parte, com freqüência, da motivação que leva as pessoas à psicoterapia. O estresse causado pelos desajustes conjugais contribui para o surgimento de diferentes transtornos emocionais, sendo os mais comuns os quadros depressivos e de ansiedade (Epstein, 1985; Beck, 1995; Epstein & Schlesinger, 1995). Tal panorama justifica o fato de diferentes abordagens psicoterápicas dedicarem atenção ao tema. A terapia de casais é uma área de aplicação das TCCs que no inicio se dava predominantemente sob o enfoque da mudança comportamental. Ao longo do tempo foi se ampliando e hoje o foco reside nos processos de pensamento e sistema de crenças dos parceiros, configurando-se como um acréscimo que tem proporcionado resultados efetivos e consistentes (Dattilio & Padeski, 1995). Ellis (1977, citado por Dattilio & Padesky 1995)também identifica o enfoque predominantemente cognitivo para as terapias de casais. A terapia cognitivo-comportamental se ocupa da interação complexa das respostas cognitivas, comportamentais e afetivas que ocorrem nas interações de um casal (Epstein, 1998).

Este artigo alinha-se com a tendência da terapia cognitivo-comportamental contemporânea ao ter como objetivo preciso apresentar a possível aplicação da Teoria dos Esquemas de Young à terapia de casal, focando a influência dos esquemas precoces tanto na escolha do parceiro quanto na estruturação do vínculo conjugal. Iniciaremos, então, conceituando e tecendo considerações sobre a origem dos esquemas e sua manifestação na relação amorosa.

Do ponto de vista conceitual, a palavra esquema pode ser encontrada em vários campos de estudo e, em termos gerais, significa estrutura, esboço. No contexto da psicoterapia, em particular no paradigma cognitivo comportamental, esquema refere-se a uma espécie de lente repleta de vivências, pensamentos, sentimentos e situações da qual o indivíduo observa os acontecimentos e processa as informações (Beck, Freeman & Davis, 2005), ou, segundo Leahy (2006), maneiras habituais por meio das quais vemos as coisas.

A Terapia Focada nos Esquemas foi fundada por Jefrey Young reunindo e integrando conceitos e práticas de outras abordagens terapêuticas (Young, Klosko & Weishaar, 2003). Young et al. (2003) referem-se a uma parte biológica da personalidade, o temperamento, como uma espécie de viés genético que o indivíduo traz já ao nascer, desde o início inserido em um contexto interacional: em um primeiro momento a família, depois a escola, e, sucessivamente, o grupo de pares, a comunidade, a cultura.

Outros autores como Kagan (1989), Dragan e Cloninger (2005) também referem-se a esse viés genético. Kagan (1989) afirma existir evidências consistentes de que certas características de temperamento e padrões comportamentais já estariam presentes desde o nascimento, determinando tendências a serem acentuadas ou atenuadas pela qualidade das experiências infantis. Dragan e Cloninger (2005) referem-se à diferenças individuais de temperamento que modificam o processamento de informações do indivíduo e modelam aprendizagens precoces, condicionando respostas comportamentais automáticas.

Young et al. (2003) acredita que esse temperamento emocional interage com eventos infantis na formação de esquemas, e que, portanto, diferentes temperamentos expõem seletivamente a criança à diferentes circunstâncias da vida. Desta forma, a partir do que experienciamos, observamos e aprendemos, ao longo da infância e adolescência, construímos um conjunto de crenças a respeito de nós mesmos e de nossas relações com os outros, formando um padrão cognitivo estável e duradouro que norteia nosso funcionamento no mundo. As crenças estão inseridas nessas estruturas estáveis chamadas “esquemas” que selecionam e sintetizam os dados, para então desencadear uma série de estratégias de enfrentamento.

Young et al. (2003) classifica os esquemas em adaptativos e mal adaptativos. Os primeiros originam-se de vivências precoces percebidas como positivas e que, ao serem acionadas, contribuem para o enfrentamento e a resolução satisfatória das questões da vida. Os esquemas mal adaptativos, por sua vez, têm sua origem nas vivências precoces percebidas como dolorosas, podendo gerar interações perturbadas na vida atual. Para o autor, as experiências tóxicas da infância seriam a origem primária dos esquemas disfuncionais, aos quais se refere como “esquemas infantis desadaptativos” (EIDs). Desta forma, o que a pessoa experiencia já na vida adulta, diante de situações que ativam esses esquemas precoces seria, em essência, o drama da infância.

Outro autor, Jurg Willi (1985), terapeuta de casais, ao se aprofundar no estudo sobre a dinâmica conjugal, afirmou que nenhuma relação humana se aproxima tanto da relação pais-filho como a relação de um casal. Acredita que os problemas e as dificuldades dos casais seriam fruto de um jogo conjunto inconsciente, presente desde a escolha do parceiro, que chamou de colusão. Willi (1985) identifica quatro tipos de colusão: o primeiro, pode ser observado em casais onde a interação se define com um parceiro mantendo-se na posição de protetor, enquanto o outro permanece em um papel frágil e dependente, compondo assim um padrão relacional cuidadordesamparado.

O segundo ocorre quando um dos parceiros perpetua-se no papel de “dominador”, enquanto o outro exerce um papel passivo. O terceiro tipo de situação relacional polarizada é aquela em que somente um dos parceiros realiza seu potencial, enquanto o outro renuncia às próprias necessidades e desejos em favor deste. E quarto e último tipo mostra uma relação de inveja e rivalidade, promovendo uma competição crônica pelo poder.

Comparando as posições de Young et al. (2003) e Willi (1985), encontramos um elemento comum que sugerimos chamar de “conjunção de esquemas precoces”, ou seja, o entrelaçamento dos esquemas mentais de cada parceiro, que acreditamos ser a origem dos diversos padrões de respostas no relacionamento amoroso.

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Dependência de Internet e Habilidades Sociais

terça-feira, 3 de junho de 2014

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Cada período da história é permeado por avanços, o período atual certamente é impulsionado pela grande influência tecnológica. Com o advento da World Wide Web, popularmente chamada de Internet, a sociedade moderna vive uma era pautada pela instantaneidade das comunicações e pelo mundo virtual atualmente acessível à maioria dos lares. Paradoxalmente, efeitos inesperados começaram a indicar o uso desadaptativo desta ferramenta, denunciando o aparecimento da Dependência de Internet (DI).

A Dependência de Internet tem sido apontada como um problema crescente, em que o adicto tem danos graves em relação a sua funcionalidade em várias áreas da vida. O dependente de Internet tende a despender cada vez menos tempo com sua família, amigos, colegas de trabalho, comunidade em troca de tempos solitários à frente do computador.

Por conseguinte, esta psicopatologia tem como núcleo o insucesso em resistir ao impulso de utilizar a internet, mesmo que isto esteja prejudicando a funcionalidade do indivíduo.  Este impulso geralmente vem acompanhado de tensão e ansiedade antecipatória e alívio durante ou após o cumprimento do ato (“estar” na internet). Durante este processo não há avaliação de suas conseqüências, havendo um foco em gratificações imediatas, logo ele traz repercussões significativas na vida do indivíduo.

Uma das características fortemente associadas a este tipo de dependência é a distorção de tempo à frente do computador. O usuário passa muitas horas a mais do que desejaria “navegando”, muitas vezes perdendo compromissos escolares, sociais e/ou familiares. Gradualmente, os dependentes vão perdendo sua rotina normal até que suas vidas se tornem imanejáveis, circunscritas pela redução de conexões sociais.

Neste sentido, as relações virtuais são hipervalorizadas em detrimento das relações reais. Este fenômeno afeta o desenvolvimento do indivíduo e, na maioria das vezes, é apontado como uma forma de mascarar a inabilidade social no mundo real. Em conseqüência, o adicto à internet desenvolve restrito repertório comportamental diante de situações que ultrapassem os limites virtuais.

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